‘Computação em nuvem’ impulsiona negócios na área de TI

Computação em nuvem

O mercado de produtos e serviços ligados ao segmento deve atingir US$ 150 bilhões em 2013.

Em 1990, na palestra de abertura da Condex, a maior feira de computação e tecnologia do mundo, que ocorre todo ano em Las Vegas, nos Estados Unidos, o então executivo-chefe da Microsoft, Bill Gates, reforçou suas credenciais de visionário tecnológico ao declarar que a indústria dos computadores pessoais (PCs) iria produzir em poucos anos avanços que colocariam a informação nas pontas dos dedos das pessoas. Para chegar lá, disse Gates, o mundo precisava de três coisas: um computador pessoal mais “pessoal”, redes de comunicações mais potentes e fácil acesso a uma ampla gama de informações. Às vezes, os visionários acertam nas previsões, mas erram no timing.

Somente agora a grande visão de Gates finalmente está se tornando uma realidade para as empresas. Partes do que ele tinha em mente já estão disponíveis há anos, mas geralmente elas eram caras e difíceis de serem implementadas e usadas. Agora, o PC mais pessoal está aqui, na forma dos smartphones e dos minilaptops, e as redes de telefonia sem fio de banda larga tornam possível para as pessoas estarem conectadas quase o tempo todo e com qualquer lugar. Ao mesmo tempo, estamos vendo a ascensão da “cloud computing”, a enorme variedade de máquinas interconectadas que gerenciam dados e softwares que antes eram rodados nos PCs. Essa combinação das tecnologias móvel e de cloud computing está evoluindo para um dos avanços mais significativos do universo da computação em décadas. “A grande visão: estamos finalmente chegando lá”, diz Donagh Herlihy, diretor de tecnologia da Avon Products. “Hoje, não importa onde você está, você pode se conectar a todas as informações de que precisa.”

A Avon está embarcando em uma enorme e prolongada reorganização da maneira como administra seus quase seis milhões de representantes de vendas espalhados pelo mundo. No passado, os “líderes de vendas”, que ajudam a gerenciar as vendedoras, mas não são funcionários da companhia, examinavam o trabalho das vendedoras principalmente em reuniões presenciais e conversas telefônicas. Mas, este mês, a Avon começa a equipar 150 mil líderes de vendas com um sistema de cloud computing acessível via smartphones e PCs. A tecnologia vai mantê-los mais atualizados sobre o desempenho de cada vendedora e alertá-los quando as vendedoras não conseguiram nenhuma encomenda recente ou quando estão com pagamentos vencidos junto à companhia. A ideia é aumentar as vendas e a eficiência do sistema de distribuição da Avon.

A estratégia da Avon mostra como o relacionamento entre indivíduos e seus computadores está passando por uma mudança radical. Até agora, as pessoas vinham usando uma variedade de equipamentos de informática em suas vidas profissionais, incluindo computadores de mesa, laptops, aparelhos portáteis e smartphones. Cada equipamento era essencialmente uma ilha de possibilidades – aplicativos, comunicações e conteúdo. A cloud computing significa que a informação não está presa a máquinas individuais; ela está combinada em uma “nuvem” digital disponível ao toque de um dedo a partir de muitos equipamentos diferentes. “Estamos virando um mundo mais centrado nas pessoas e na informação”, diz Paul Maritz, executivo-chefe da fabricante de softwares VMware.

Para a indústria tecnológica mundial, que movimenta US$ 3,4 trilhões por ano, essa mudança oferece uma saída à monotonia econômica. Na verdade, ela poderá ser a maior oportunidade de crescimento desde o boom da internet. A consultoria Gartner prevê que o mercado de tecnologia mundial vai encolher 3,8% este ano, mas há quem tenha grandes expectativas em relação aos equipamentos portáteis, redes sem fio e cloud computing nos próximos anos. A Gartner prevê que o mercado de produtos e serviços ligados à cloud computing passará de US$ 46,4 bilhões no ano passado para US$ 150,1 bilhões em 2013.

Muitas empresas estão lutando para entender o que essa mudança vai significar para elas. Elas estão tentando encontrar seu caminho, descobrir a melhor maneira de tirar vantagem dela. “Nessa área, estamos um pouco atrasados, de modo que será um grande passo para nós”, afirma o doutor Leo Hartz, diretor-médico da Blue Cross Northeastern Pennsylvania, que recentemente começou a usar um sistema de cloud computing que permite aos seus 300 mil membros encontrar históricos médicos e obter informações a partir de seus telefones móveis. “É novidade, mas eu acho que veremos grandes mudanças.”

Muitas experiências que estão sendo realizadas oferecem lições para outras empresas. A Serena Software mudou quase que totalmente para a cloud computing, chegando a adotar o Facebook como principal fonte interna de comunicação. A Genentech disponibilizou especialistas em medicina para os vendedores de campo, com dois toques de botão. A Coca-Cola Enterprises está equipando 40 mil funcionários que trabalham em trânsito, incluindo os motoristas de seus caminhões, pessoas encarregadas de propaganda e vendedores, com aparelhos portáteis que proporcionam a eles uma comunicação melhor com o escritório quando estiverem em trânsito. Eles podem alertar seus chefes instantaneamente sobre mudanças na demanda ou problemas que encontram. Tais exemplos sugerem as possibilidades futuras do uso dessas tecnologias na reorganização das vendas, distribuição e outras partes do negócio.

Não será fácil para as empresas transformar em realidade as oportunidades prometidas. Ainda há muito trabalho a ser feito para que todas essas tecnologias funcionem sem “costuras” e de maneira confiável. As companhias de tecnologia estão mudando para a cloud computing muitos dos aplicativos de software que elas normalmente gerenciam, mas ainda falta muita coisa a ser mudada.

Enquanto isso, as companhias precisam ser cada vez mais tranquilizadas de que seus dados e comunicações estarão seguros e que os novos serviços estarão disponíveis sempre que elas quiserem. Em 14 de maio, uma interrupção no Google deixou muitos clientes incapazes de usar seus aplicativos on-line. E embora a indústria tecnológica esteja tornando mais fácil o agrupamento de informações de “nuvens” de serviços diferentes (perfis pessoais e calendários, por exemplo), muito da fusão real ainda precisa ser feita.

Os defeitos resultam em oportunidades para muitas companhias de tecnologia. Fabricantes de chips como a Qualcomm e a Intel estão criando produtos para equipamentos portáteis que juntam mais capacidade em um único pedaço de silício, ao mesmo tempo em que reduzem o consumo de energia, facilitam o acesso à informação na “nuvem” de todas as partes. Fabricantes de telefones móveis como a Nokia e a Research In Motion (RIM) estão se apressando para lançar produtos voltados para os usuários empresariais que tenham todas as facilidades de uso do iPhone, da Apple.

Os fabricantes de hardware Hewlett-Packard (HP) e IBM, entre outros, estão acondicionando tecnologias cloud em seus servidores. Gigantes dos softwares como a Microsoft e a SAP estão desenvolvendo serviços cloud. A Salesforce.com está fornecendo conexões móveis ao seu softwares cloud para gigantes como a Avon e a Genentech. E companhias iniciantes estão criando tecnologias que reorganizam nossos mundos digitais. A Xoopit do Vale do Silício, por exemplo, criou um mecanismo de busca especializado capaz de encontrar bits de informação dispersos por sistemas de e-mail, programas de gerenciamento de vendas, blogs e sites de notícias on-line. Um executivo pode usar essa tecnologia para juntar informações sobre reclamações de clientes de uma variedade de fontes.

Este é um daqueles momentos decisivos em que as pequenas empresas podem explodir no cenário, enquanto as gigantes “perdem o trem”. Um dos fatores que colocam algumas gigantes tecnológicas em desvantagem é que a mudança para uma abordagem mais personalizada à computação está sendo liderada por companhias nascidas e criadas no mundo do consumo. A Apple e o Google entendem muito bem que a simplicidade e a facilidade de uso são essenciais à adoção ampla de produtos e serviços. Essa lição não é assimilada naturalmente pela Microsoft e IBM.

Mas elas estão tentando. Para a IBM, a mudança começa com a companhia encorajando seus 400 mil funcionários a usarem ferramentas que ela criou com base nos sites de relacionamento voltados para o consumidor. Depois que ela testa internamente as novas capacidades de cloud computing aos moldes do consumidor, ela então as lança como serviços aos clientes. Em 1º de abril, a IBM anunciou o LotusLive Engage, um serviço cloud para corporações que combina rede de relacionamento e colaboração. A IBM agora está trabalhando para tornar possível aos usuários do Engage entrar no site de relacionamento social profissional LinkedIn diretamente das páginas do Engage, para encontrar pessoas de fora de suas companhias de cujas experiências eles precisam.

Um dos aspectos mais promissores da cloud computing é que ela permite a criação dos chamados assistentes pessoais virtuais. Esses programas sabem dos interesses e necessidades das pessoas e fazem coisas úteis para elas na internet, como sugerir um restaurante para uma reunião com clientes ou oferecer lembretes de onde elas já levaram clientes. Com GPS nos smartphones, os sistemas de cloud computing sabem onde estamos. E com softwares de inteligência artificial, os computadores podem aprender o que esperamos que aprendam e como antecipar nossas necessidades.

A Siri, uma companhia iniciante do Vale do Silício, lançou no mês passado um serviço que coloca inteligência artificial sofisticada de uma forma fácil de ser usada. As primeiras aplicações foram elaboradas para ajudar as pessoas a coordenar viagens e entretenimento, mas os fundadores antecipam o desenvolvimento de ferramentas poderosas especialmente para o setor corporativo. Um exemplo: um vendedor pede ao seu assistente virtual que o ajude a elaborar uma estratégia de venda para um determinado cliente. O assistente tira informações de uma variedade de fontes, que o vendedor pode usar para criar uma proposta. “O objetivo é simples e prático: ajudar na realização de tarefas que tornem a vida mais rápida, fácil e personalizada”, diz Adam Cheyer, vice-presidente de engenharia da Siri.

Simples? Sim. Mas foi preciso quase 20 anos e inovações tremendas para chegar aqui. Mas, finalmente, a indústria tecnológica começa a confirmar as visões de Bill Gates.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s