Empreendedorismo no sangue


Emprendedorismo

Dois anos atrás, quando a prestigiosa faculdade decidiu alterar o currículo e incluiu o tema desde os primeiros semestres da graduação, ficou evidente que não se tratava de uma moda.

Durante toda a graduação na Fundação Getulio Vargas de São Paulo, no fim dos anos 80, Tales Andreassi nunca ouviu falar na palavra empreendedorismo. E assim foi por vários anos, até que, em meados da década de 90, a expressão fosse incorporada ao jargão acadêmico dos cursos de administração mundo afora.

A essa altura ninguém diria, portanto, que passado algum tempo, em 2004, a FGV decidiria criar o seu Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios, onde Andreassi, pós-graduado na Universidade de Sussex (Inglaterra), ocupa hoje a função de coordenador. “Houve de fato uma mudança na cabeça dos alunos de administração e muitos hoje veem como uma boa opção profissional abrir o próprio negócio”, diz Andreassi, também coordenador de pós da Easesp-FGV.

Dois anos atrás, quando a prestigiosa faculdade decidiu alterar o currículo e incluiu o tema desde os primeiros semestres da graduação, ficou evidente que não se tratava de uma moda. “As gerações mais novas já cogitam atuar no setor ‘2 e meio’, no qual a atividade social é acompanhada do lucro, como fez Muhammad Yunus.”

Dedicado à concessão de crédito para as camadas sociais de menor poder aquisitivo, Yunus, Prêmio Nobel da Paz em 2006, tornou-se uma referência forte também aos candidatos a Mark Zuckerberg, criador do Facebook, que em agosto esteve em São Paulo para uma palestra, a convite de Andreassi.

CartaCapital: Como surgiu a ideia de criar um centro de estudos dedicado ao empreendedorismo?

Tales Andreassi: O GVcenn foi criado há seis anos com o objetivo de oferecer aos alunos outras opções de carreira. A ideia foi mostrar aos que optam pelo curso de administração que não precisavam necessariamente seguir carreira em uma grande organização. Eles têm muitas outras opções. Podem trabalhar no terceiro setor, criar uma organização não governamental ou ir para a área pública, e também podem optar por um negócio próprio.

CC: Como funciona o centro?

TA: Atuamos em várias áreas. Convidamos empreendedores para relatar suas experiências aos estudantes. Em agosto, veio Mark Zuckerberg, criador do Facebook, com transmissão ao vivo pela internet e um público on-line de mais de 5 mil pessoas. Também vieram dar seus depoimentos alguns empreendedores brasileiros de sucesso. Apoiamos ainda competições de planos de negócios, próprias ou levando alunos para disputas internacionais. O aluno vem para defender uma ideia de produto ou um plano de negócio, e é avaliado por professores e profissionais do mercado.

CC: É possível definir o empreendedor?

TA: Existem várias definições. Para o Sebrae, trata-se do indivíduo que tem um negócio próprio, incluindo até o vendedor de coxinhas no semáforo. Do ponto de vista de Schumpeter, o primeiro teórico do empreendedorismo, trata-se de alguém capaz de mudar a ordem das coisas, a chamada “destruição criativa”, como ele chama, que altera a ordem vigente. Um exemplo disso é o Bill Gates. Ou seja, apenas um número muito pequeno de pessoas poderia entrar nessa categoria. E existe o meio-termo entre essas duas vertentes, que considera algumas características particulares do empreendedor, como a sua capacidade de inovar e de identificar uma oportunidade de negócio. É alguém orientado para o crescimento, disposto a correr riscos. Nesse sentido, o dono de um carrinho de cachorro-quente pode ser um empreendedor. Então ele independe do ramo de negócio. Trata-se, segundo autores que seguem essa linha, principalmente de um comportamento do empresário.

CC: O conceito de empreendedorismo é relativamente recente no Brasil. Parece ter sido um termo adaptado dos EUA e da Inglaterra, é isso mesmo?

TA: Mais ou menos, mesmo porque se trata de algo inerente à cultura do brasileiro a ideia de ser o próprio patrão. Mas, de fato, empreendedorismo é uma palavra nova em português. Quando me formei, no fim dos anos 80, nunca tinha ouvido falar nessa palavra, só bem depois, já nos anos 90. Até os anos 90, quem decidia fazer administração em geral queria trabalhar em uma grande corporação. Na virada dos anos 2000, isso começa a mudar. Em primeiro lugar, porque os empregos já não eram como antes. Antigamente, as pessoas entravam em uma empresa e ficavam 30 anos, até se aposentarem, hoje não. As empresas investiam muito em treinamento, era possível passar uma semana em curso no exterior, e isso também caiu muito. As jornadas de trabalho são mais extensas, os quadros foram muito reduzidos. Trabalha-se muito, mas com uma qualidade de vida em muitos casos insatisfatória. Paralelamente a isso, começam a surgir os grandes exemplos de sucesso de empreendedorismo ligados à internet.

CC: Há quem imagine que o empreendedor trabalhe menos. Isso é correto?

TA: É um certo mito. Em geral trabalha até muito mais do que se estivesse em uma grande empresa. Mas no negócio próprio tem maior flexibilidade, é dono da própria agenda, há uma série de vantagens. E se você estiver no caminho correto poderá colher mais adiante, em alguns anos, um resultado muitas vezes melhor.

CC: A terceirização também funcionou como estímulo, não?
TA: Sem dúvida, abriu brechas. Muitos profissionais saíram das organizações para abrir seus próprios negócios, inicialmente para prestar serviços para as empresas em que trabalhavam. E, dentro de um processo de seleção natural, de sobrevivência, apenas os mais competentes permaneceram, os demais foram aos poucos fechando, desaparecendo.

CC: Existem algumas áreas da economia de maior interesse aos empreendedores?

TA: É difícil identificar. Claro que as vendas por site, o comércio eletrônico, atraem muita gente, inclusive por não demandar grandes investimentos e é possível trabalhar em casa. Mas outra área que também desperta muito interesse são os negócios ligados ao meio ambiente. Surgiram recentemente várias pequenas consultorias nessa área, especializadas em fazer diagnósticos em prédios comerciais ou residenciais. Procuram identificar onde é possível economizar água ou energia elétrica, como fazer coleta seletiva de resíduos. O negócio dessas consultorias é dar apoio técnico e administrar essas soluções. Ou trabalhar com a reciclagem de garrafas pet. Para atender a essa demanda, fizemos uma mudança curricular há dois anos. Hoje, logo nos primeiros semestres do curso, o aluno já tem uma disciplina que ensina o empreendedorismo.

CC: A gerações mais novas demonstram mais interesse por iniciativas com objetivos sociais?

TA: É verdade. Recentemente, surgiu o chamado setor “2 e meio”, para diferenciá-lo do terceiro setor, que são as ONGs sem fins lucrativos. No caso do “2 e meio”, busca-se criar soluções comunitárias sem abrir mão do lucro. O exemplo mais conhecido disso é o Banco do Povo, de Yunus, que é lucrativo apesar de ser voltado às pessoas de menor renda. Ele, aliás, foi o primeiro a mostrar que é possível ter lucro atendendo uma população carente, fazendo o bem, e isso é muito interessante.

CC: Historicamente, o Brasil sempre tratou mal os empresários dispostos a correr riscos, com excesso de burocracia, impostos e custos elevados. Como está a situação hoje?

TA: Houve uma melhora nos últimos anos. Mas ainda existe um problema muito grande em relação ao crédito, ainda caro. Quem vai a um banco pedir empréstimo tem de apresentar garantias, os juros são altos. Mas também é verdade que surgiram alguns programas interessantes, como o Prime, da Finep, que oferece crédito a fundo perdido para incentivar novos negócios, com uma fatia para o pró-labore, outra para consultorias e tecnologia. Tem também a questão da burocracia, que melhorou muito, mas, dependendo do ramo de negócio, ainda pode levar muito tempo para abrir uma empresa. Há ainda o problema tributário.

CC: Como a conjuntura de crise após setembro de 2008 afetou as pequenas e microempresas?

TA: A crise não teve uma abrangência tão grande. Acontece que o pequeno empresário não tem fôlego, qualquer turbulência o atinge. Por isso, a empresa de menor porte é como um filhote instável que precisa ser cuidado, senão morre. É preciso uma série de programas que a amparem, mesmo porque a maioria da população ativa trabalha em pequenas empresas. Vale registrar que o Sebrae desempenha um papel muito importante nessa área, especialmente nas cidades de menor porte, nos arranjos produtivos locais, com um trabalho importante de capacitação.

CC: Quais os países que se destacam no fomento ao empreendedorismo?

TA: Os EUA são muito fortes, assim como a Coreia do Sul e a China. Mas a Coreia é um exemplo interessante. Eles têm um número muito grande de incubadoras e políticas de apoio à inovação e ao empreendedorismo. Na hora do serviço militar, de três anos, há a opção de não servir se você for um cientista ou engenheiro na pós-graduação e trabalhe para um centro de pesquisas de uma empresa. Esses jovens aceitam trabalhar em pequenas empresas por um salário menor e transferem o conhecimento que conseguiram ao longo dos anos de estudo. É uma maneira muito interessante de capacitar a pequena empresa. Também fizeram uma lei de isenção de imposto para os cientistas estrangeiros com o objetivo inicial de atrair pesquisadores da extinta União Soviética. No Brasil, falta uma articulação maior entre empresas, universidades e governos, o que chamamos de hélice tríplice. Para haver um sistema forte de inovação, é preciso que haja políticas públicas voltadas à transferência de conhecimento. Embora tenha melhorado muito nos últimos anos, ainda falta azeitar melhor a relação entre esses atores.

Fonte: Carta Capital

Opinião da Cysneiros Consultores:

Flammarion Cysneiros - CEO - ICOMUNI ConsultoriaPara Flammarion Cysneiros, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento de Projetos da ICOMUNI Consultoria, a inovação gera capital intelectual e tecnológico, e é o catalizador dos países emergentes na economia mundial .

A ICOMUNI Consultoria empresa há mais de 5 anos no mercado, presta consultoria em empreendedorismo e inovação, e capacita empresas a investirem cada vez mais em projetos inovadores e de alto valor competitivo.
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