Saiba quem são os adolescentes que criaram startups

José Esteves e Guillermo de Haro


Esta é uma história conhecida: mais um empreendedor de São Francisco acaba de criar uma startupunicórnio antes dos 35. O que não é tão conhecido é que o maior desafio desse empreendedor foi não ter permissão para contratar pessoal, nem para pedir empréstimo. Por quê? Porque ele era adolescente.

Quando estava com 16 anos, Javier Agüera (atualmente com 24) coinventou o Geeksphone, alegadamente o primeiro celular de plataforma Android que permite ao usuário alterar os componentes desse sistema operacional sem ter antes de habilitar o dispositivo. Aos 19 anos ele já tinha criado três startups e foi considerado pela MIT Technology Review um dos “inovadores com menos de 35 da Espanha”. No entanto, por causa de sua pouca idade, ele enfrentou desafios que empreendedores maduros nem imaginavam. Se é difícil para um adulto criar uma empresa de sucesso, imagine tentar isso aos 16.

Mas isso é rotina para um número cada vez maior de jovens empreendedores como Javier Agüera.

De acordo com o influente Global Entrepreneurship Monitor, considerado o maior estudo em andamento sobre o empreendedorismo no mundo, embora a faixa média de idade dos empreendedores seja dos 25 aos 45 anos, as pessoas estão começando a abrir negócios cada vez mais cedo. Por que os jovens estão decidindo entrar no mundo dos negócios antes de adquirir experiência profissional e, em alguns casos, antes de cursar a universidade? Quais são os desafios que eles enfrentam, e que habilidades precisam ter para criar uma startup de sucesso? São os mesmos desafios já enfrentados pelos mais velhos? A idade é importante? E se for, o que nós, educadores da administração, podemos fazer para ajudar a próxima geração de empreendedores?

Para entender melhor esse fenômeno crescente, desenvolvemos uma pesquisa qualitativa para identificar e analisar o conjunto de competências desses jovens. Entrevistamos jovens empreendedores e usamos dados secundários de várias mídias como palestras TED, entrevistas em meios de comunicação, artigos de jornais, canais do Youtube e canais de mídias sociais, (principalmente LinkedIn, Twitter e Facebook). Entrevistamos pais, sócios e colegas de trabalho de jovens empreendedores. Como resultado, desenvolvemos uma base de dados contínua com 84 empreendedores. O mais jovem tinha 8 anos – estritamente falando ele era um empreendedor pré-adolescente –, e o mais velho 19.

Inicialmente, identificamos várias barreiras importantes que os jovens empreendedores enfrentam em sua jornada de empreendedorismo. A primeira é o financiamento: na maioria dos países estudados os jovens empreendedores não podem contrair empréstimos em dinheiro legalmente, nem registrar empresas. Ou, como explicou Erik Finman, fundador do projeto de educação online Botangle, à CBS News: “Jovens de 15 anos não podem contratar funcionários”. Nem pedir empréstimos ou assinar contratos comerciais. Além disso, jovens com menos de 18 anos são cerceados pelos sistemas educacionais que os desencorajam a se tornar empreendedores: na maioria dos países, a educação é obrigatória até 16 anos, o que limita o tempo que eles podem dedicar aos seus projetos… e aos seus clientes, sócios, investidores ou stakeholders.

Apesar das dificuldades que enfrentam, o que nos surpreendeu sobre esses jovens empreendedores é que eles são inteligentes, têm senso de humor, têm apetite pelo risco, e o mais importante, desenvolveram capacidades para enfrentar os desafios que mencionamos. Eles mostram forte autodeterminação, independência e disposição para assumir a responsabilidade por seu próprio aprendizado. Quando Javier Agüera tinha 14 anos, por exemplo, ele descobriu um website em inglês onde podia comprar acessórios para smartphones. Ele se ofereceu para traduzi-lo para o espanhol e assim ampliar o mercado do site – ao mesmo tempo ele aprendia sozinho programação da web e logística de dispositivos móveis.

Descobrimos também algumas coisas que diferenciavam esses jovens empreendedores.

A maioria daqueles com os quais conversamos se encontra em empresas que competem na área de tecnologia e têm como base a inovação; nelas o conhecimento mais importante pode ser aprendido num curto período. Algumas dessas empresas surgiram somente há poucos anos (criptomoedas, por exemplo). Isso sugere que, embora um ano de experiência num setor não pareça muito, em termos relativos pode ser considerável, principalmente quando ela se combina com a abordagem proativa característica dos jovens empreendedores em relação ao aprendizado. É preciso lembrar que estamos falando de uma geração com fácil acesso à tecnologia da internet desde os primeiros anos de vida. Experientes com smartphones, mídias sociais e no próprio uso de computador, para eles usar a tecnologia faz parte do dia a dia.

Da mesma forma que os empreendedores mais maduros, eles também reconhecem a importâncias das redes – mas as redes dos jovens empreendedores são um pouco diferentes. Como lhes falta acesso ao mundo adulto dos empreendedores, os jovens empresários criam suas próprias redes: o israelense Nir Kouris criou a eCamp para promover redes sociais e trocar ideias e conhecimento entre jovens em seu próprio país e no exterior enquanto fundava a “Inovation Israel”. A Pangea, na Espanha é um projeto liderado por Pablo González, jovem empreendedor focado em criar uma rede para jovens empresários que se ajudam mutuamente e procuram conselhos e referências externas. Javier Agüera participa do grupo Global Shapers, do Fórum Econômico Mundial, onde encontrou outros jovens como ele. Esse tipo de iniciativa fornece o apoio necessário para os jovens empreendedores, o que diminui a ansiedade dos pais, em especial os mais descrentes, sobre a perspectiva empreendedora dos filhos.

Como resultado, os jovens empreendedores são extremamente conectados e se ajudam mutuamente, mais que seus homólogos mais velhos. Nossa experiência é que é mais fácil trabalhar com um jovem empreendedor que com um empreendedor mais maduro: eles têm muita vontade de aprender com pessoas mais experientes no setor, enquanto os empreendedores tradicionais geralmente relutam em permitir que pessoas experientes analisem ou se interessem por seus projetos.

Os jovens empresários têm tendência natural de assumir riscos, e essa característica muitas vezes frustra e confunde os pais. Nossa pesquisa mostrou que os jovens não temem o risco, mas são menos resolutos quando os critérios e metas não estão claramente definidos.

Comparados com outros adolescentes, os jovens empreendedores são dotados de grande capacidade crítica, são mais focados e mais capazes de administrar riscos e tomar decisões. Segundo vários estudos, os gestores e empreendedores mostram padrões muitos diferentes em relação ao risco – os empreendedores geralmente mostram maior tendência para assumir riscos.

Um motivo por que os jovens empreendedores são em geral mais ousados diante dos riscos é ainda viverem com os pais, o que basicamente fornece uma estrutura importante de segurança. Liderar um projeto que exige tempo para crescer obviamente não é o mesmo que focar em gerar receita para manter uma família. Talvez por isso os jovens empreendedores vejam oportunidades em tudo, o que explica em grande parte por que a maioria das empresas com as quais competem é de tecnologia e extremamente inovadoras: enquanto uma pessoa mais madura vê numa empresa ou numa tecnologia imatura um risco impossível de ser administrado, as pessoas mais jovens veem um campo fértil para cultivar um novo projeto.

Os jovens empreendedores que estudamos estão mais conectados globalmente que os mais velhos. Por terem crescido num mundo conectado pela internet, eles não veem fronteiras geográficas. Bastian Manintveld, CEO e fundador do 2btube – rede multicanal que administra centenas de usuários do Youtube, muitos deles também jovens empreendedores –, nos revelou: “Para a geração do YouTube não há fronteiras nem países: se eles gostam de um conteúdo (ou parte dele) eles o consomem, não importa de onde vem”. Muitos dos jovens empreendedores que entrevistamos falam um segundo idioma e viveram longos períodos em países estrangeiros, onde se integraram a uma nova rotina de vida. Eles tinham de trabalhar com gente que mal conheciam, viver novas experiências e resolver problemas com pessoas que pensam diferente, falam outra língua, cresceram em outra cultura e têm mentalidade completamente diferente, que se reflete em suas decisões. Isso ajuda os jovens empreendedores a entender a dinâmica dos relacionamentos, o que os torna mais flexíveis, respeitosos, confiantes e capazes de trabalhar com a ambiguidade e ao mesmo tempo perseguir objetivos claros. Nossos jovens empreendedores mostraram complexidade cognitiva e cosmopolitismo.

Não se formam jovens empreendedores, e eles não nascem assim. Eles são uma combinação das duas coisas. Como nos revelou Javier Agüera quando explicou o segredo de seu sucesso: “É um pouco de sorte e muito trabalho duro”, uma ideia com a qual qualquer empreendedor de qualquer idade deverá concordar.
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José Esteves é professor associado do IS/IT da IE Business School, Espanha. Guillermo de Haroé professor associado de economia aplicada da Universidade Rey Juan Carlos, em Madri.

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